Como fazer da dificuldade algo desejável

Como fazer da dificuldade algo desejável

Por Thereza Barreto, Diretora Pedagógica do ICE

 

Recentemente, um grupo de professores do Departamento de Física da Universidade de Harvard realizou um experimento que os professores deveriam conhecer.

 

Nesse experimento incrível não haviam bolinhas rolando em planos inclinados, molas ou polias, ímãs ou impulsos elétricos. Então o que havia de tão incrível?

 

A pergunta que esses professores fizeram e pesquisaram foi: como podemos fazer com que os estudantes aprendam mais? De maneira geral, como as pessoas aprendem alguma coisa – e o que atrapalha nesse aprendizado de modo que elas sejam menos fluentes?

 

Muitos anos de experiência e diversos estudos sugeriram que os estudantes aprendiam melhor quando: realizavam atividades práticas nos laboratórios; resolviam problemas semanalmente;  tinham a oportunidade para discutir com outros estudantes em sala de aula ou, ainda, quando se submetiam a curtas e frequentes avaliações. Essa abordagem, considerada ativa, parecia mais efetiva que a abordagem mais tradicional – e mais passiva – do tipo onde o professor, sozinho, transmite conhecimento, mas isso não é exatamente uma novidade.

 

Para testar suas hipóteses, os professores desta universidade escolheram aleatoriamente para o seu experimento, os estudantes matriculados no curso Introdução à Física e usaram tanto métodos mais ativos quanto aqueles considerados passivos. Para as aulas deste curso, os professores usaram os mesmos materiais e apenas o método de ensino era diferente.

 

Em termos e medidas objetivas de avaliação, os estudantes que foram submetidos às aulas com métodos mais ativos aprenderam mais e isso não surpreende. No entanto, ao serem submetidos a questionários de autorrelato, os mesmos estudantes disseram que aprenderam menos.

 

Nas entrevistas de follow-up, os estudantes disseram que o aprendizado ativo era “mais confuso e mais frustrante” do que o aprendizado passivo, tradicional, a exemplo de quando ouvem o professor numa aula, sem interrupção. Mas nas mesmas entrevistas de follow up, os estudantes indicaram que o fato de saber sobre a eficácia do aprendizado ativo versus o passivo poderia fazê-los mudar de ponto de vista.

 

Os professores sentiram-se inspirados e tiveram uma ideia a partir dessa revelação. Eles criaram uma apresentação de 20 minutos sobre o que significa aprendizado ativo, incluindo o gráfico acima, e entregaram a um novo grupo de estudantes.

 

Durante a discussão que se seguiu, os estudantes expressaram surpresa para aquilo que parecia bom no momento, ou seja,  ouvir passivamente um professor apresentar um assunto, não era tão produtivo quanto lidar ativamente com o material em si ou interagir com os colegas. A maioria dos estudantes expostos a essas novas informações teve humildade intelectual para mudar suas atitudes em relação à aprendizagem ativa.

 

Qual é a lição? Não presuma que ter domínio sobre algo é sempre melhor que a frustração. A dificuldade pode ser algo desejável na medida em que nos provoca a mudar de lugar e de perspectiva. Também não presuma que os estudantes que passaram em sua vida tenham aprendido essa lição. A humildade intelectual é uma habilidade socioemocional importantíssima, embora rara.

 

Que tal refletir sobre as nossas práticas de formadores inspirados por essa experiência?

 

Ao conhecer o experimento, ficou evidente para mim uma certeza: ensinemos utilizando métodos ativos! E espalhemos a notícia de que novas evidências científicas afirmam o velho ditado: “diga-me e eu esqueço, ensine-me e lembro-me, envolva-me e aprendo”.

 

 

*O estudo referenciado nesse texto é Lessons in Learning (https://news.harvard.edu/gazette/story/2019/09/study-shows-that-students-learn-more-when-taking-part-in-classrooms-that-employ-active-learning-strategies/?utm_source=Character+Lab+-+Email+List&utm_campaign=5ce0f6ff02-TOTW_A_Lesson_in_Active_Learning&utm_medium=email&utm_term=0_4810b42811-5ce0f6ff02-253585773), desenvolvido pelos Professores do Departamento de Física da Universidade de Harvard:  Louis Deslauriers (Diretor do Ensino de Ciências), Logan McCarty (Diretor de Educacão Científica e Leitorado de Física), Kelly Miller (preceptora sênior de Física Aplicada), Greg Kestin (professor preceptor de Física) e Kristina Callaghan (professora de Física da Universidade da California).

**Diga-me e eu esqueço, ensine-me e lembro-me, envolva-me e aprendo – Benjamin Franklin

*** livre tradução e adaptação de A Lesson in Active Learning – Angela Duckworth.