O que fazer com todas as mãos que não apertamos e todo abraço que evitamos?

O que fazer com todas as mãos que não apertamos e todo abraço que evitamos?

Por Thereza Barreto, Diretora Pedagógica do ICE

 

Neste período de isolamento, não apenas estou mantendo uma parte importante dos meus trabalhos no ICE como tenho dedicado algum tempo a realizar pesquisas e novos estudos. Recentemente conheci o trabalho de uma psiquiatra norte-americana chamada Samantha Boardman por intermédio do seu site Positive Prescription.  Ela é professora assistente de Psiquiatria e também trabalha na unidade de pesquisa biomédica da Faculdade de Medicina da Universidade de Cornell, localizada em NY e uma das 8 mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos.

 

A Dra. Samantha enfatiza a importância das interações diárias e o quanto elas são valiosas para a nossa saúde mental. Quando pensamos no Pilar do Aprender a Conviver, um dos Princípios Educativos da Escola da Escolha, relembro de como somos seres sociais e do quanto precisamos uns dos outros, tanto quanto precisamos de ar para respirar. Há quem afirme que as pessoas que passam cada vez mais tempo com os outros, são mais felizes e saudáveis​​do que aquelas que são menos sociáveis. No entanto, isso refere-se a estar “pessoalmente” com amigos e familiares, o que neste momento, não é possível.

 

A mim parece estranho seguir a posição acima e, ao mesmo tempo, adotar de maneira rigorosa o distanciamento social quando muito do meu próprio bem-estar depende das várias conexões sociais que tenho. No entanto, fico mais tranquila quando me inspiro nas diversas maneiras criativas que muitas pessoas têm criado. Os vídeos que circulam nas redes sociais nos quais os italianos, em quarentena,  cantam suas canções populares de suas varandas, acenando uns para os outros e aquele no qual uma menina em João Pessoa celebra o seu aniversário com os amigos cantando “Parabéns pra você” das janelas, me lembra com muita força que não estamos sozinhos. Podemos permanecer fisicamente distante, mas socialmente conectados e presentes!

 

A Dra. Samantha nos estimula a adotarmos outras orientações para a nossa convivência e sugere um “almoço virtual pelo Skype” com um amigo ou a criação de um Clube do Livro virtual. No dia 25 de março nós realizamos um “Café com Alinhamento” com todo o time ICE, lembram? Teremos outros enquanto durar esse distanciamento.

 

O psicólogo Jamil Zaki, professor da Universidade de Stanford, na Califórnia, observa: “Quando compartilhamos o espaço físico, não limitamos nossas conversas a assuntos urgentes. Brinque, converse besteira e observe o tempo. Estes momentos intermediários são urgentes – para o nosso senso de lugar e comunidade. Nós devemos mantê-los por perto em qualquer formato que pudermos.”

 

Também podemos (e devemos) ser úteis e presentes na vida de outras pessoas. Esteja presente na vida de outros, como puder. Faça doações para organizações que promovem a caridade como aquelas que abrigam idosos, crianças e pessoas desassistidas que se encontram nas ruas. Dentro das suas condições, continue pagando aqueles que prestam serviços a você, mesmo que não estejam trabalhando.

 

Seja grato e criativo! A gratidão faz bem para o nosso cérebro, lembra da nossa? Envie uma mensagem para alguém que você nunca agradeceu como gostaria – um professor, um médico, um colega, um irmão e, quem sabe, aos seus filhos. Ofereça uma refeição, ou mesmo uma fatia de torta às pessoas que mantém o prédio onde você mora em condições sanitárias adequadas, além das suas funções do dia a dia. Na Páscoa eu cozinhei uma peixada e ofereci aos porteiros e zeladores daqui. Quem sabe, algumas máscaras (dessas em tecido que muitas pessoas estão confeccionando) ou uma cesta básica poderia ser doada àqueles que estão mantendo as nossas ruas limpas e recolhendo o lixo que produzimos?

 

Eu também me sinto inspirada por essas pessoas que não se cansam de agradecer aos profissionais de saúde.

 

Muitas pessoas se colocam à disposição para ir ao supermercado ou farmácia para ajudar um vizinho idoso. Minha vizinha colou recadinhos nas portas dos idosos que moram no nosso edifício.

 

Há muitas maneiras de estar presente na vida do outro, nos ensina o prof. Antonio Carlos. E agora, mais que nunca, é preciso estar presente, mesmo estando distante.

 

Um amigo judeu enviou para mim uma mensagem escrita por um rabino chamado Yosef Kanefsky que dizia mais ou menos assim:

 

Todas as mãos que não apertamos devem se tornar um telefonema que fazemos. Todo abraço que evitamos deve se tornar uma expressão verbal de calor e preocupação. Cada centímetro e cada pé que colocamos fisicamente entre nós e o outro deve se tornar um pensamento sobre como podemos ajudar esse outro.”

 

A Covid-19 é uma tragédia sanitária, social e econômica. Mas ela fala sobre todos nós e é também uma oportunidade para fortalecer nossas habilidades e desenvolver outras.

https://positiveprescription.com/about/ é o site mantido pela Dra. Samantha Boardman.

** Jamil Zaki é professor associado de psicologia na Universidade de Stanford e chefe do Laboratório de Neurociências Sociais de Stanford. https://psychology.stanford.edu/people/jamil-zaki