Vocês não gostam de ler!

Vocês não gostam de ler!

Você já olhou nos olhos de adolescentes e proferiu esta sentença? Sim, é uma sentença, noticiada em todas as mídias há tantos anos e por tanta gente. É o que apontam as pesquisas, afinal, nacionais e internacionais. Eu estive numa roda de leitura de adolescentes numa escola pública numa cidade do interior do País, olhei nos olhos delas(es) e disse: vocês sabiam que não gostam de ler? Sabiam que é o que dizem sobre vocês há muito e muito tempo? Difícil descrever o que senti olhando nos olhos de tantos olhos que anunciavam espanto. Afinal porque eu que estivera lendo entre eles um conto de Gabriel Garcia Marquez, trecho a trecho, onde cada qual externava seus pontos de vista, suas reflexões sobre o conto, estava afirmando que não gostam de ler?

 

O desenvolvimento do gosto por qualquer coisa é algo que se apura com oportunidades, experimentação e tempo. Saber e gostar de ler não é diferente, é resultado de uma bem calçada trajetória leitora, que deve nascer em casa, estender-se na escola e expandir-se nas bibliotecas em escolas, públicas e comunitárias – estas últimas surgem como iniciativa da sociedade civil em resposta à ausência de atendimento suprido por política pública e em diversas localidades Brasil adentro constituem-se em locais de resistência cultural de comunidades desassistidas pelo poder público. Com raras e valiosas exceções, as bibliotecas públicas e em escolas, quando existem, são em sua maioria precárias, da arquitetura à oferta de leituras, inúmeras vezes confundidas com quaisquer outras ações que não seja simplesmente ler. Claramente não se confia na força do texto escrito e na possibilidade de alguém se engajar com leitura sem que para isso concorram muitas outras atividades, acanhadas que ficam as bibliotecas de “apenas e tão somente” oferecer leituras. Acervo envelhecido, espaços desconfortáveis ou diminutos, práticas leitoras equivocadas, livros nunquinha à mão cheia e… voilà: jovens não gostam de ler.

 

Somos uma sociedade habituada a ler números das pesquisas que indicam o que não somos, ou não temos, ou não fazemos, ou não…. mas me parece que entre as tantas coisas que não somos ou não temos ou não fazemos a leitura se destaca como um fetiche paralisante. Há muitas ações Brasil adentro movidas por jovens que não aceitam essa pecha, arregaçam as mangas e vão em busca de assegurar um direito que nenhuma política pública ainda foi capaz de colocar em prática. Conheci outro dia o Isaac Souza Faria, membro do núcleo do Jovens do Fundão, que atuam por política pública no extremo da zona sul de São Paulo. Eles sabem que além de quebrar os cadeados que trancam o acesso a muitas bibliotecas de escolas públicas – as que têm, pois cerca de 55% não tem segundo dados do Observatório do PNE. E o que eles fazem mesmo? Leem e conversam sobre leituras. Simples assim!

 

Eu não sei o que você pensa sobre, mas quando eu leio na pesquisa Retratos da Leitura do Brasil de 2015 que 56% dos entrevistados são leitores e o livro disparadamente mais lido é a bíblia, seguido de livros religiosos, e o autor mais lido é de autoajuda, eu não acho que apenas 44% restantes não são leitores. Na minha leitura temos 100% de não leitores, ao menos se convergimos na ideia do que é ser leitor. Ou seja: mesmo os que são considerados leitores têm cardápio de bibliodiversidade extremamente restrito Sem acesso cotidiano à diversidade cultural expressa no texto escrito, seja em suporte impresso ou digital, compromete-se profundamente a possibilidade da população brasileira atingir o nível pleno de alfabetismo, que segundo o Inaf significa: habilidade na qual não mais se impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais: são pessoas que leem textos mais longos, analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Quanto à matemática, resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas de dupla entrada, mapas e gráficos”.

 

A gente não precisa fazer qualquer pirotecnia para formar leitoras(es). A gente precisa garantir de verdade acesso gratuito e cotidiano aos livros, às práticas leitoras, às leitoras e leitores desde a primeira infância. Essa possibilidade se chama biblioteca pública, em escola, aberta à comunidade, comunitária. A gente precisa ler com e para elas/eles, e oportunizar que leiam entre si. É preciso que a gente se dê conta de que oportunidade é a porta de entrada para tudo e para todas/todos. É esta a convicção que move o Leitores sem Fronteiras, projeto que conecta Brasil adentro pela internet estudantes de ensino médio de escolas públicas que integram o Programa Escola da Escolha do ICE numa experiência ao mesmo tempo simples e complexa: leitura compartilhada de textos literários, onde se lê e se comenta o que se lê em grupo, sem respostas certas, parando no ponto em que se quer para falar sobre percepções e sentimentos acordados ou despertados pela leitura. Jovens lendo com jovens, entre jovens, para jovens. Jovens que enveredam por uma trajetória leitora significativa com o apoio cuidadoso de uma equipe de leitoras(es) formadoras(es). E o que eles e elas têm dito sobre esta experiência?

 

“Essa plataforma oferece a nós uma nova perspectiva da leitura, mostra, como o nome fala, que não existem fronteiras para tal. A leitura une a muitos, independente de onde estivermos, tocando nossos corações”.

 

O Leitores sem Fronteiras é um plano de ação cuidadoso e concreto em diálogo com os indicadores lidos há tantos anos, que são constatação da consequência em não termos sido uma sociedade eficaz na missão de formar leitores e leitoras. Então, bora expurgar das manchetes a sentença e trabalhar junt@s para ofertar políticas públicas, educacionais e culturais que tramem em favor de crianças, jovens e adultos: leitura e escrita de qualidade para tod@s, com muita literatura para que a gente aprenda, como ensinou Juany Guedes, uma grande leitora sem fronteiras, egressa da Escola da Escolha, a “encarar a vida com coragem poética”…

 

Christine Castilho Fontelles, cientista social, concebeu e coordena o projeto Leitores sem Fronteiras e a Campanha Eu Quero Minha Biblioteca, pela universalização de bibliotecas em escolas, realizados em parceria com o ICE.