Leitores sem Fronteiras na Escola da Escolha

Leitores sem Fronteiras na Escola da Escolha

Como dizia o poeta Antonio Machado, o caminho se faz ao caminhar. Consideramos agosto um mês de reestreia do Leitores Sem Fronteiras: dúvidas tratadas, substituições e novas inscrições realizadas, equipe de formadores(as) preparada para acolher todos(as) na jornada literária que segue para alguns(mas) e inicia para outros(as) estudantes.

 

Seguimos com a convicção de proporcionar com a literatura uma ponte para construção e travessia de humanidades e abertura de amplas perspectivas de mundo, para além do senso comum e superficialidades que trafegam em todas as mídias. E ao seguir nesta jornada damos mais um passo na direção de tornar verdade a máxima de Antonio Candido, “Numa sociedade justa o respeito aos direitos humanos e fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável”, o que de certa forma anuncia que nada e nem ninguém vive em vão.

 

A jornada de leituras literárias, a partir dos contos e textos cuidadosamente selecionados pela equipe e que partilhamos com as escolas que integram o projeto segue em frente, proporcionando aos(às) estudantes 50 minutos por semana de contato ao vivo e em cores com um portal no tempo e no espaço, entre jovens de tantos estados brasileiros, mediados(as) por um(a) formador(a) Leitor sem Fronteira. Nesta jornada podem ser e estar em qualquer lugar, onde não há respostas certas, mas inúmeras possibilidades. Lendo e falando sobre o que se lê, experienciam um alargamento de referências cognitivas, fortalecendo a razão intelectual e a razão sensível. As fronteiras do pensamento e do sentir se ampliam, enquanto a distância geográfica se torna desimportante, se desfaz, porque nestes momentos estão vivendo no mesmo tempo e espaço. Por isso, estarem nesta jornada semanal é vital. Como todo e qualquer processo educativo, a construção de cultura leitora se pauta na construção de vínculo, na permanência das experiências, no tempo que apura e fortalece a aprendizagem.

 

Dizem os pesquisadores que leitores(as) de ficção são menos propensos(as) a tirar conclusões rápidas, com base em informações insuficientes e incompletas, para satisfazer sua necessidade pessoal de “apropriar-se” de um assunto. E como isso é importante na construção de um projeto de vida, no fortalecimento do protagonismo responsável, sobretudo em tempos em que muitos estão tão propensos a deixar-se levar por informações falsas, as famosas “fake news”, que levam concretamente à morte de pessoas, da democracia, da nossa humanidade comum.

 

Ironia do destino ou não, a jornada do Leitores sem Fronteiras recomeça no mês em que chegam até nós os novos dados do Índice de Alfabetismo Funcional (Inaf) no Brasil, pesquisa realizada há mais de 10 anos pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ong Ação Educativa. Os dados seguem assustadores. Vamos a eles: apenas 12% dos brasileiros alfabetizados, entre 15 e 64 anos, são considerados alfabetizados em nível pleno, ou seja, revelam domínio de habilidades que praticamente não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais e resolvem problemas envolvendo múltiplas etapas, operações e informações. Esse dado está estagnado há 10 anos. Segundo a mesma pesquisa, três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no País – 29% do total, o equivalente a cerca de 38 MILHÕES DE BRASILEIROS! – são considerados ANALFABETOS FUNCIONAIS: têm muita dificuldade de entender e se expressar por meio de letras e números em situações cotidianas, como fazer contas de uma pequena compra ou identificar as principais informações em um cartaz de vacinação. Há DEZ ANOS a TAXA ESTÁ ESTAGNADA. Entre os que terminaram o ensino médio, 13% são analfabetos funcionais e, dos que têm ensino superior, 4%.

 

Como não podemos olhar estes dados como se assiste novela, estamos em ação, tocando e acolhendo seres humanos para além das estatísticas. Estamos tocando com literatura e promovendo partilha e construção de rede ampliada de leitores e leitoras sem fronteiras por meio dos Clubes ICE Leitores sem Fronteiras. Somos, juntos(as), na Escola da Escolha, a ação para um nunca mais outra vez lamentar lamentáveis estatísticas.

 

Como disse uma jovem protagonista egressa da Escola da Escolha, Juany Diegues, a incrível leitora sem fronteiras que conhecemos na realização do projeto piloto ano passado, aqui estamos para “…continuarmos juntos e encarar o mundo com coragem poética”.

 

É tão precioso saber que partilhamos confiança e estamos juntos(as) nesta jornada.

 

Christine Castilho Fontelles, idealizadora e coordenadora do projeto Leitores sem Fronteiras.